quarta-feira, 28 de julho de 2010

Permita-me


Permita-me, num bocejo de palavras
Arredar do peito, fartos nós
Que se apoderaram, num fastio
Esses bafejos em versos tristes

Não me deram saber, que dito
Retorno aventurado, compraziam
Nem mais que dois, ou três
Desejos imanados que apontoam a alma

Esbravejando antônimos, doridos
A calcificação do ser, por ser
Atroz face na face, rebalde
Nesta simbiose do deleitar-se

Arrumação de vida, profana
Jazigo de amores, sécia
Que arrebata em lume, era
De labiríntica previdência

Nego Sartre

terça-feira, 27 de julho de 2010

Desastres NÃO naturais


A Terra é um organismo vivo. Fato cantado e decantado aos quatro cantos. Mas sempre nos sobra aquela pergunta de que se sabemos disto, que porquês são esses que nos fazem proclamar sua destruição e, por conexão, a nossa também...

Como comandanta deste organismo, essa entidade etérea chamada Natureza, nesses últimos tempos vem expondo as feridas e as dores sentidas pela Terra. Dos ditos desastres naturais, que não são nem de longe desastres e sim acomodações naturais, se assomam a vida do ser humano de uma constância que poderia se dizer sem precedentes. Mas há muitos precedentes, e como há...

A Terra se tornou um campo minado pelas ações impostas pelo homem. Intermináveis dejetos plásticos vedam os sulcos que alimentam de ar os pulmões; máquinas que raspam as florestas deixando a pele cancerosa; o ouro preto derramado que adentra a corrente sanguínea como um veneno. Este é o legado de destruição, de morte, deste planeta que é vida em sua plenitude, herança da raça humana...

A água, o alimento, o ar, produto de um organismo vivo chamado Terra, vai esvaindo, vai esvaindo, esvaindo...

É chegado o momento desse organismo vivo reagir, entrincheirar-se por detrás de suas potentes defesas naturais, revolvendo todo o mal produzido por ações inconseqüentes e desmedidas dos seres humanos. Em assim havendo, nascerá um novo mundo, surgirá uma nova era...

Nego Sartre

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Desprendimentos



Somos confrontados diuturnamente por nossas conquistas materiais. Essa prova está presente principalmente no consumo. E alguns apelos sempre nos remetem de um lado a consumir mais, enquanto outros no dizem para manter por muito tempo aquilo que adquirimos.

São esses momentos que mais reflete o conflito entre o novo e o velho. À mostra a cultura da inovação revestida de um mundo estritamente tecnológico, que em contraste cultua um chamado mundo do modelo retro, da antiguidade. Há um erro de manifestação ideológica e educativa. Há uma adoração à forma, à matéria sem precedentes. E isto tem nos levado a derrocada da condição humana.

Particularmente, tenho pensado se aquilo que me pertence materialmente tem tido o mesmo número de vida das coisas que a meus pais pertenciam. As duradouras linhas de modelos retrôs as quais lhe damos valor hoje nasceram de um valor de durabilidade dos quais gerações anteriores tinham como princípio.

Nós, que fazemos parte de uma massa que adota o descartável como princípio, a par do apego que podemos afirmar que tinham nossos pais, somos escravos desse princípio. Cada dia e cada vez mais trabalhamos para nos manter apegados a essas coisas, a esses bens, que de duradouros só tem a passagem para um novo modelo.

E numa batalha de gerações somos forçados a acreditar que o apego nasce naqueles aos quais tem como princípio permanecer o máximo de tempo com a mesma mesa, a mesma cadeira, a mesma cama, a mesma carteira (àquela que lhe traz sorte) e por incrível que possa parecer, a mesma família.

Ao darmos valor à praticidade do descartável, a rapidez de uma comida congelada, isso parecer nos tornar seres humanos desapegados da matéria, desprendidos. Tolo pensamento. Escravos do consumo ‘sem eira nem beira’, somos amantes do ter como reflexo daquilo que imaginamos ser. E se somos aquilo que dizemos ter, mortos nos encontramos sem o saber.



Nego Sartre

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Porta fechada


Tem dessas coisas, a vida da gente. Vez ou outra, damos com a cara na porta. Sorte nossa quando sai ileso nosso nariz. Dessas desventuras somos noticiadores pela vida toda, e quase sempre, em forma de reclamação.

E das piores portas, somos sofredores daquelas mais imaginárias. A do coração que quando bate chega a estremecer todo o ser e toda a forma. Na mente, somos ludibriados por caminhos tortuosos e tenebrosos. E daqueles que são dos outros, transformamo-las em eterno muro de lamentações.

Talvez aquela que seja mais dolorida quando fechada é a nossa em derredor de nossa vida. Isto dói tanto para quem nela busca guarita e muito mais pra nós que a fechamos às querelas e quimeras normalmente daqueles por quem temos admiração.

Esse é o meu desafio, e quem sabe talvez o seu, deixar de ser o cão de guarda de minha entrada, transformando-me num construtor de um templo, que é minha vida, sem portas e nem janelas, que não tem a pretensão de obstaculizar passagens e nem de se arvorar senhor do destino.


Nego Sartre

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sonhos


Tenho a estranha mania de sonhar. Não por que penso em fugir da realidade, mas como o alicerce que sustenta minhas realizações. Sem isso não seria capaz de trilhar nenhum dos caminhos que a vida sugere a todo momento.

Se eu realizo ou fracasso, não são substantivos surgidos do acaso. Nascidos dos sonhos, eles são planos engendrados para que o encontro da felicidade dentro de mim mesmo se torne acessível e eu me torne capaz de alçá-los, fazendo-a condutora da minha vida.

Neste ínterim, os sonhos têm o poder de serem adivinhos do futuro, capazes de construir toda uma vida baseada em cada linha de palavras as quais lapidamos na eternidade de nossas vidas e que sem isso não seríamos o que somos agora. Isso que dizer sim que todos os sonhos são belos, e se se transformam em ruins ou feios é de total responsabilidade de seu executor, neste caso eu mesmo.

Hoje sou um pedaço de mim que ontem se fez, mas com a leveza do amanhã que brilhará. E aos meus sonhos os créditos de que eles são as ferramentas transformadoras do que sou agora.

Nego Sartre

domingo, 4 de julho de 2010

Incoerência


Por mais que pratique não tenho encontrado a certeza de que coerência é parte central em minhas ações, em meus relacionamentos, em meu trabalho e muito menos naquilo que escrevo.

Instigo-me a vasculhar ponto a ponto como me situo frente aos desafios e ao comodismo diário ao qual sou impelido constantemente. Quando me desafio, vejo que o poder de decidir se toma de uma clareza que, desse ou de outro lado ao qual devo recorrer, sempre me suporto um forte teor de incoerência. Muitas vezes o que vai mais pesar nesse conjunto de decisões será o fator que esteja agregado de menos incoerência, pois indiscutivelmente nenhuma decisão as quais somos levados tem no seu bojo a coerência num sentido mais stricto sensu da palavra.

De outro modo e de forma mais contundente, sou levado a sempre buscar um cantinho “esconde-esconde” frente aos desafios. Somos bandeirantes do comodismo, caçadores do conformismo. Lutamos diariamente para nos manter sempre do mesmo modo e no mesmo estado das coisas. Este é o reino da incoerência que domina e determina o sabor e dissabor das nossas vidas. Pretor da nossa consciência, a incoerência ludibria meus sentidos tomando forma de uma poderosa manifestação de coerência. Para me dominar, elas se confundem e se incorporam: coerência e incoerência.

O que mais importa em tudo isso é saber dessa dualidade, é ter consciência dessa dubiedade. De dois um, ou a arrogância toma conta dos meus atos tendo como pano de fundo a certeza de que pratica a coerência em sua totalidade, tornando-me um julgador voraz do comportamento humano; ou o aprendizado da humildade se faz presente como um veiculo condutor da minha vida, tornando-me um agente observador de minhas próprias ações sem a pecha de querer ser o dono da verdade.

Nego Sartre